7. MEDICINA E BEM-ESTAR 8.8.12

A PODEROSA VITAMINA D

Novos estudos revelam que ela Combate doenas como Diabetes e hipertenso e at ajuda a emagrecer. o problema  que est em quantidade insuficiente em metade da populao mundial
Mnica Tarantino e Monique Oliveira

Os livros didticos disponveis atualmente ensinam que a vitamina D  essencial na formao dos ossos e dentes. Mas esses textos precisaro ser reformulados para acrescentar uma longa lista de benefcios descobertos recentemente, que revelam que a substncia faz muito mais pelo organismo do que se imaginava. Ela ajuda a emagrecer, fortalece o sistema de defesa do organismo, auxilia na preveno e tratamento de doenas como a diabetes e a hipertenso e est associada a uma vida mais longa  para falar somente de alguns de seus efeitos positivos. Por essa razo, a vitamina tornou-se a mais nova queridinha dos mdicos em todo o planeta. Muitos j esto solicitando a seus pacientes que meam sua concentrao no corpo e faam sua reposio se assim for necessrio.
 
Um dos achados mais reveladores  e que ajuda a sustentar a nova atitude dos mdicos  surgiu de um trabalho de cientistas da Universidade de Oxford, na Inglaterra. Eles sequenciaram o cdigo gentico humano para averiguar quais regies do DNA apresentavam receptores para a vitamina. Receptores so uma espcie de fechadura qumica s aberta por chaves compatveis  nesse caso, a vitamina D , para liberar o acesso e a ao do composto  estrutura  qual pertencem.

O time de Oxford descobriu nada menos do que 2.776 pontos de ligao com receptores de vitamina D ao longo do genoma. A pesquisa mostra de forma dramtica a ampla influncia que ela exerce sobre nossa sade, concluiu Andreas Heger, um dos coordenadores do trabalho, publicado pela revista Genome Research. Isso quer dizer que sua presena faz uma bela diferena na forma como trabalham os genes. Todas as clulas mapeadas possuem receptores diretos da vitamina, explica o dermatologista Danilo Finamor, da Universidade Federal de So Paulo (Unifesp).
 
A outra comprovao inquestionvel do poder abrangente da vitamina no corpo humano veio de uma ampla reviso de trabalhos cientficos realizada pela Sociedade Americana de Endocrinologia cujo resultado foi divulgado h dois meses. Ela age no corao, no crebro e nos mecanismos de proliferao e inibio de clulas, entre outros sistemas, disse  ISTO o bioqumico Anthony Norman, professor da Universidade da Califrnia (EUA), um dos maiores estudiosos do tema e integrante do comit responsvel pela compilao de dados a respeito do assunto. A vitamina D tambm atua nos msculos, que so as nicas estruturas capazes de dar mais estabilidade aos ossos, diz o ortopedista Andr Pedrinelli, do Hospital Santa Catarina, de So Paulo.

Muito do que se sabe a respeito dos novos benefcios da substncia  referente  diabetes tipo 2, que hoje exibe propores epidmicas no mundo. Trabalhos demonstram que nveis baixos da substncia esto relacionados a uma disfuno ligada  origem da doena chamada resistncia  insulina. A insulina  o hormnio que permite a entrada, nas clulas, da glicose circulante no sangue. No caso da diabetes tipo 2, ela no consegue cumprir sua funo corretamente e o resultado  o acmulo de glicose na circulao sangunea, o que caracteriza a enfermidade.
 
Uma das pesquisas a evidenciar a relao vitamina D-diabetes tipo 2 foi feita pelo cientista Micah Olson, da Universidade do Texas (EUA). Ele mediu os nveis da vitamina, de glicose e de insulina no sangue de 411 crianas obesas e 87 no obesas. As obesas com nveis mais baixos do composto tinham maior grau de resistncia  insulina, disse. Em adultos, d-se o mesmo. No ms passado, estudo publicado na revista Diabetes Care mostrou que pessoas com pequena quantidade da substncia apresentavam 32 vezes mais resistncia  insulina do que a mdia dos voluntrios avaliados.

A informao do papel da vitamina no desenvolvimento da enfermidade mudou a conduta mdica. A endocrinologista Maria Fernanda Barca, de So Paulo, membro da Sociedade Americana de Endocrinologia, por exemplo,  uma das que j indicam sua reposio, se for preciso. Quando comecei a pedir dosagens, vi que cerca de 70% dos pacientes estavam com carncia ou insuficincia da substncia, diz.
 Tambm j existe um consenso cientfico de que, quanto mais obesa a pessoa, menos vitamina D ela apresenta. No est claro, porm, se a obesidade por si s diminui a presena da vitamina no organismo ou se  o contrrio. Mas, mesmo sem conhecer os mecanismos pelos quais a baixa concentrao da substncia contribui para o acmulo de gordura, os mdicos esto incluindo sua reposio na lista de estratgias mais recentes na briga contra a balana.
 
S por ajudar no controle da diabetes e da obesidade  dois fatores de risco para doenas cardacas , a vitamina j poderia ser chamada de aliada do corao. No entanto, descobriu-se que ela combate tambm a hipertenso, bloqueando a ao de uma enzima envolvida na elevao da presso arterial. Por isso, pode ser dada como coadjuvante no tratamento da doena, se for comprovado seu dficit, afirma Aluzio Carvalho, professor de nefrologia da Unifesp.

O sistema imunolgico  outro beneficiado. Ela atua como um modulador do sistema de defesa do corpo, explica a endocrinologista Cludia Cozer, de So Paulo, diretora da Associao Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Sndrome Metablica. A quantidade certa da vitamina permite que o corpo se defenda melhor, por exemplo, das gripes e resfriados de repetio. Uma das clulas beneficiadas por ela so os linfcitos T, que agem sobre as clulas estranhas e infectadas por vrus, diz o bioqumico Anthony Norman, da Universidade da Califrnia. Alguns pesquisadores sugerem que a substncia pode reduzir a mortalidade por pneumonia entre pacientes internados e ter ao especfica sobre o bacilo de Koch, o causador da tuberculose.
 
At as complexas doenas autoimunes se revelam sensveis  vitamina. Essas enfermidades so desencadeadas por uma disfuno do sistema de defesa que faz com que ele comece a atacar o prprio organismo. Se ataca protenas localizadas nas articulaes, deflagra a artrite reumatoide. Se forem clulas da pele, h vitiligo ou psorase. Nesse campo, a substncia tambm tem sido vista como uma esperana, inclusive para pacientes de esclerose mltipla, enfermidade autoimune que acomete clulas nervosas e leva  perda gradual dos movimentos. J se sabe que o seu avano  mais rpido em quem convive com nveis baixos da substncia, conforme documentou um estudo da Universidade de Maastricht, na Holanda, a partir do acompanhamento de 267 pessoas com a doena.

RECEITA - A mdica Cludia Cozer  uma das que indicam a reposio da vitamina se for preciso
 
Na Unifesp, mais de 800 portadores de esclerose mltipla esto recebendo doses do composto, sob responsabilidade do neurologista Ccero Galli Coimbra, um entusiasta do tratamento. So doentes com dficit comprovado e resistncia gentica  vitamina, explica o mdico.  uma terapia eficiente, que precisa ser divulgada, diz Coimbra, criador do Instituto de Autoimunidade, voltado a esse tipo de tratamento.
 
Na mesma linha de interveno segue a Universidade de Toronto, no Canad. Pacientes com a enfermidade l tratados apresentaram uma notvel diminuio da perda de clulas nervosas. No entanto, o tratamento  considerado complementar e tem opositores. A terapia convencional da doena  feita com o medicamento interferon-beta, que modula o sistema imunolgico.

TRATAMENTO - O neurologista Ccero Galli coordena pesquisa sobre o efeito da vitamina no controle da esclerose mltipla
 
A pesquisa das ligaes do composto com o cncer  um campo dos mais desafiadores para os pesquisadores. Em junho, cientistas da Universidade da Carolina do Norte (EUA) anunciaram que pacientes com tumor de pncreas com maior quantidade de receptores para a substncia tm sobrevida maior do que os outros. Antes, eles j tinham sido encontrados pelos cientistas britnicos em reas associadas  leucemia linftica crnica e cncer colorretal. H tambm suspeita de que a vitamina regule genes ligados aos tumores de prstata e pesquisas mostrando doses deficientes em mulheres com cncer de mama. Um estudo mostrou que o aumento de sua quantidade poderia impedir aproximadamente 58 mil novos casos de tumor de mama e 49 mil novos casos de cncer colorretal a cada ano, disse  ISTO a mdica Archana Roy, da Clnica Mayo (EUA). Mas outros trabalhos so necessrios para esclarecer e comprovar essas relaes, pondera a endocrinologista Ana Hoff, do Hospital Srio-Libans, em So Paulo.
 
Embora seja chamada de vitamina, a substncia , na verdade, um pr-hormnio. Ou seja, d origem a vrios hormnios importantes para o corpo.  sintetizada a partir de uma frao do colesterol, transformada sob a ao dos raios ultravioleta B do sol. Ela tambm est presente em alimentos  principalmente peixes de gua fria , mas sua concentrao neles  pequena e seria suficiente para fornecer apenas 20% das necessidades dirias.

FALTA - No consultrio da endocrinologista Maria Fernanda, 70% dos pacientes tinham quantidade insuficiente da substncia
 
 por essa razo que hoje os especialistas encontram-se preocupados. Ao mesmo tempo que fica cada vez mais clara sua importncia para a sade, o mundo enfrenta uma espcie de epidemia de dficit da substncia. Segundo a Organizao Mundial da Sade, metade da populao mundial tem menos vitamina D do que precisa. De acordo com a OMS, h insuficincia quando o exame de sangue indica uma concentrao menor do que 30 ng/ml (nanogramas por mililitro de sangue). Valores abaixo de 10 ng/ml so classificados como insuficincia grave. Dosagens iguais ou superiores a 30 ng/ml esto na faixa da normalidade, cujo limite mximo  100 ng/ml.
 
A enorme deficincia se deve principalmente  pouca exposio ao sol que as pessoas tm atualmente. Para que seja sintetizada na quantidade adequada, recomenda-se a exposio de partes do corpo (braos e pernas, por exemplo) entre 20 e 30 minutos ao sol diariamente, sem filtro solar. Ou, como orienta outra corrente, expor 15% da superfcie da pele (equivale a dois braos) pelo menos trs vezes por semana, com filtro solar. E, nesse caso, fazer complementao com suplementos receitados a partir da necessidade individual de cada um.

Essas so as orientaes de forma geral. Isso porque as descobertas recentes esto produzindo mudanas nas recomendaes das concentraes ideais de acordo com grupos especficos. No ano passado, por exemplo, os americanos elevaram esses valores para a populao da terceira idade. Seguindo a tendncia americana, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) decidiu aumentar as suas indicaes para crianas e adolescentes.  importante lembrar que, para crianas maiores, a suplementao s ser necessria caso a criana no atinja a quantidade de vitamina D recomendada apenas com alimentao e luz solar, diz Virginia Weffort, do Departamento de Nutrologia da SBP.
 
A cautela  realmente imprescindvel. No se deve tomar vitamina D indiscriminadamente, adverte o endocrinologista Sharon Admoni, do Ncleo de Obesidade e Transtornos Alimentares do Hospital Srio-Libans. Em dose excessiva, ela causa enjoo, desidratao, priso de ventre e pode aumentar a quantidade de clcio, elevando a presso arterial. Pode tambm gerar pedras nos rins. O ideal  que quem faz suplementao seja bem monitorado pelo seu mdico e faa exames peridicos de sangue, diz a mdica Ana Hoff. Dessa maneira, s haver benefcios.

